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5 de jun de 2009

Violência nas escolas


Ambientes de violência escolar são ambientes onde a comunidade escolar vive sob permanente tensão. Em contrapartida, aquelas escolas que lograram diminuir a violência são aquelas cuja comunidade escolar (principalmente professores e direção) conseguiu reduzir os focos de tensão. Uma maneira relativamente simples de diminuição dos focos de tensão é o estabelecimento de regras claras de conduta no interior da instituição escolar. Isso não quer dizer, necessariamente, que todos tenham de discutir todas as regras durante todo o tempo, pois isso inviabilizaria qualquer processo de regularização do cotidiano. Mas é importante que o que pode e o que não se pode fazer seja regra estável e que não mude ao sabor do humor das “autoridades educacionais” e conveniência dos “donos do poder” na instituição. Em diferentes pesquisas os jovens têm chamado atenção sobre este aspecto da clareza e estabilidade das regras para o bom funcionamento da escola. Um exemplo disso é a proibição de fumar na escola. A proibição de fumar no espaço público da instituição deveria ser para todos e não apenas para os alunos. Um professor que utiliza o telefone celular em sala de aula “perde” o direito de sancionar seus alunos pelo uso do mesmo tipo de aparelho de comunicação.

É preciso, então, dedicar-se a atuar sobre as fontes de tensão no ambiente escolar. Evidentemente existem fontes de tensão que escapam ao controle direto da instituição escolar.
Este é o caso de escolas situadas em territórios dominados por traficantes e milícias cujas práticas de violência e de controle dos corpos acabam por influenciar o cotidiano escolar. O tráfico instaura uma rede de sociabilidade e influência quase impossível de mapear e que complexifica as interações e cria duplicidade de valores e poderes no cotidiano escolar. A ausência do poder público nesses territórios ou sua presença corrupta através da chamada “polícia bandida” é fator de isolamento de escolas e profissionais da educação que têm que “negociar” suas existências em território adverso às relações institucionais democráticas. Como ensinar alguns dos preceitos básicos da democracia e da Constituição brasileira, tais como o direito de ir e vir e o direito de expressão, em regiões onde as regras de circulação e enunciação são ditadas por aqueles que o psicanalista Hélio Pellegrino denominou como “os barões das biroscas”, em artigo no Jornal do Brasil no ano de 1987, dizia ele:

Aparecem nos morros os barões das biroscas, os potentados desdentados que caricaturam, gotescamente, os donos-da-vida cá de baixo. Os traficantes de drogas assumem o comando das favelas, com o acumpliciamento da polícia e do conjunto da sociedade. Há aqui uma ilustração dramática da verdade segundo a qual a ideologia da classe dominante é a ideologia de todo o corpo social. A favela, portanto, cresce e multiplica, ao preço de que suas lideranças fiquem nas mãos de traficantes e delinqüentes. A ordem perversa dos morros, ao contrário do que parece, faz o jogo do conservantismo de direita. O tráfico de drogas subsidia o mínimo conforto do morro, sem agravamento do déficit público, aplicado às mutretas da praxe. (...) Além do mais, há grandes traficantes de drogas que utilizam a delinqüência das favelas para manter e expandir seus negócios. Favela não produz cocaína: de onde vem a droga?

A preocupação exacerbada com a violência escolar, com as transgressões e com as incivilidades pode invibilizar aqueles alunos silenciosos que “não dão problema”, que não incomodam os professores e a escola, mas também não aprendem ou têm uma má relação com o saber, com as aprendizagens escolares, consigo mesmo ou com os outros. A instituição, além de elogiar o silêncio e a quietude como requisitos do bom aluno, muitas vezes, omite-se da possibilidade de mediar uma situação de violência inicialmente provocada pelo desprezo pelo “diferente” através de práticas de mortificação simbólica do outro. Poderíamos citar vários exemplos relacionados com a homofobia, o racismo, o sexismo, os padrões de beleza, os preconceitos de local de moradia ou região de nascimento etc. A escola é instituição universalista, sem dúvida, mas dentro dela habitam sujeitos diversos que precisam aprender o ofício de ser aluno e cidadão e para isso precisam contar a contribuição da instituição e seus agentes nesta humana e árdua tarefa de co-existir.

Gostaria de finalizar dizendo que neste quadro de discussão da violência escolar não se pode desconsiderar as precárias condições das escolas das redes públicas e também a ausência de projetos educativos que possam absorver novas realidades com as quais as escolas e seus educadores têm que lidar. A escola pública no Brasil se expandiu de forma precária, não se preparando material e humanamente para a chegada dos “novos bárbaros”. Houve a expansão das matrículas no ensino fundamental e mais recentemente ampliou-se a presença de jovens de camadas populares na escola de ensino médio. Novos sujeitos, novas realidades sociais e culturais, problemas de novo tipo na escola e a conseqüente necessidade de respostas adequadas às novas realidades e públicos. Há evidente dificuldade da instituição escola de lidar com as referências dos grupos de sociabilidade juvenil que se constituem fora do ambiente escolar e cujas regras e subjetividades coletivas, por muitas vezes, entram em choque com a disciplina e os valores da instituição. A proibição do uso do boné na escola é exemplar dessa situação de inadequação da instituição aos novos públicos e conseqüente estabelecimento de foco de tensão e incomunicabilidade entre diferentes sujeitos que deveriam dialogar no interior da instituição. O boné traz em si um caráter simbólico de representação dos contextos não escolares produtores de sentidos existenciais para jovens, não apenas de espaços populares, e seus grupos de cultura e sociabilidade que se vêm rejeitados pela instituição, na maioria das vezes, sem justificativas plausíveis formuladas pelos agentes institucionais.

Os choques e tensões entre alunos e entre estes e o mundo adulto têm afetado o clima das escolas. Os professores passam, então, a se sentir permanentemente ameaçados. O aluno, em grande medida, deixa de ser a razão de ser da instituição e passa a ser o objeto de medo que precisa ser evitado, controlado ou afastado do convívio escolar.

O chamado problema da violência nas escolas está ancorado em fenômenos objetivos que ocorrem no ambiente escolar. É preciso pensar que em grande medida esses fenômenos são expressões, não apenas reflexos, de processos societários mais amplos, tais como a crise da sociedade assalariada que tornou o desemprego estrutural, a crise do programa socializador das instituições tradicionais da modernidade, o apelo da sociedade de consumo e aquilo que chamei de “autoridade das mercadorias culturais” (Carrano, 2003) produzindo subjetividades juvenis, o consumo e o tráfico de drogas dentro e fora as escolas, a facilidade com que os jovens acessam armas de fogo, dentre outros fatores. Por outro lado, é preciso pensar nas próprias dificuldades da instituição escolar em lidar com seus jovens públicos socializados em ambientes de incertezas, desfiliação institucional e riscos sociais de diferentes ordens. Desta forma, as escolas precisam não apenas se defender da violência mas abrir espaços e tempos para refletir até que ponto estão dando respostas satisfatórias aos problemas enunciados e para se indagar se a presença dos jovens em seus espaços faz sentido para eles e elas e também para a própria instituição escolar.

O sociólogo e psicólogo italiano Alberto Melucci afirmou, e com ele concordo, que todas as vezes que dissermos que temos um problema com um adolescente ou jovem devemos pensar também que não é possível encontrar o pólo problemático num sujeito isolado. O problema estará sempre no circuito da relação. Em outras palavras, se tenho um problema com um aluno, não devo acreditar que é o aluno um problema, em si, mas que a nossa relação se tornou problemática. É neste sentido que a busca do diálogo é melhor alternativa para a construção de relações democráticas e o destensionamento da escola. Termino com o convite ao diálogo que a poesia de Antonio Machado nos faz em seu “método para o diálogo”. Para o diálogo, diz o poeta espanhol, primeiro pergunte e depois escute.

- Paulo Carrano

Leia o texto na íntegra aqui

Fonte: Observatório Jovem

4 comentários:

Débora da Vitória de Jesus. disse...

Lendo este texto seu fiquei aqui matutando...
Trabalhei em escola que tinha gangs, e a coisa estava sendo arrumada... gangs se desfazendo...
Mas, como o meu método é Jesus Lindão na reta, fui demitida! Jesus aqui, não. Não é politicamente correto.

E não é que aqui nos blogs foi o mesmo?

Ainda bem que nos blogs há realmente liberdade, pois apesar de uns fecharem as portas outros escancaram...
A "hipocrisia dos séculos" só será desmascarada com o Reino de Cristo. E estamos chegando lá. Obrigada pela oportunidade em me permitir falar sobre isso.
Rosângela

Jéssica Carvalho disse...

Débora Rosângela, como cristã tb posso te dizer pagamos o preço por todas as nossas escolhas até mesmo na politica. Mas ainda assim penso que vale a pena ficar marcada, taxada, ou ser demitida a não fazer nada. Pagamos o preço por tudo isso, mas ainda assim acredito que é melhor do que fingir que nada acontece, colocar uma venda nos olhos. Ainda prefiro errar porque acreditei estar lutando pelo melhor do que me conformar com a apatia do não fazer nada, do observar.

Débora da Vitória de Jesus. disse...

Eu penso que foi desmascarada nos blogs a "falsa democracia". Os que mais exigem liberdade, foram os que mais expuseram seu íntimo.

Não sou contra os posicionamentos diferentes. Sou contra o impedimento de posições diferentes. Nem Jesus fez isso.
O mais lamentável por aqui não foi o impedimento, mas a AGRESSIVIDADE e imaturidade nos impedimentos. Coisa mesmo de REPRESSÃO E DITADURA.
INACREDITÁVEL, VINDO DE QUEM VINHA...

Jéssica Carvalho disse...

Sinceramente se está falando do IFF, posso assegurar-lhe que nosso movimento pelas diretas já, veio desmascaram a farsa dos que pregavam a democracia mas queriam adiar as eleições para daqui há 3 anos. Não vou mais discutir sobre isso. O fato é que nosso movimento foi vitorioso! E a luta continua, quando houver as eleições e o professor que muito admiro for candidato estarei lá de 6 as 23 horas fazendo camapanha! Saudações a quem tem coragem!