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21 de mai de 2009

Rubem Alves, Barthes e a Sapientia

Um dos educadores que eu mais amo é o Roland Barthes. Roland Barthes era um homem de uma delicadeza... todos os estudantes junto com o Roland Barthes se sentiam inteligentes porque ele tinha a capacidade de transformar qualquer coisa que o aluno falasse numa coisa bonita, ele tinha capacidade de extrair a beleza das coisas que os alunos falavam. E ele tem um texto chamado “A Aula” - é uma aula inaugural que ele deu, quando ele estava sendo inaugurado como professor de semiologia no Collège de France. E, ao final do seu texto, ele já estava se sentindo velho...

Bom, eu estava falando sobre o Roland Barthes, e ele estava se sentindo velho, mas ele era bem mais moço do que eu, devia ter, eu acho, uns 55 anos. E ao final da aula, ele disse uma coisa muito interessante: que a vida de um professor se divide em três fases. (Na verdade, ele falou vida de um professor por modéstia, era a vida dele que se dividia em três fases.) Na primeira fase, ele disse, a gente ensina o que sabe. E é verdade, a gente ensina o que sabe, a gente ensina a criança a dar nó no sapato, a andar de bicicleta, a somar, dividir, a escrever, a gente ensina as coisas que sabe. Esse “ensinar as coisas que sabe” é um ato de transmitir as receitas de como viver que a gente aprendeu. Parte dos nossos saberes são receitas, como receita culinária do livro da Dona Benta.


Aí o Barthes foi raspando e finalmente chegou, segundo ele, àquilo que ele achava essencial, àquilo que estava por debaixo, soterrado pela educação. Então ele disse que aquilo que havia encontrado, ele ia dizer “na encruzilhada da etimologia” e usou a palavra latina sapientia. Sapientia quer dizer sabedoria. E o francês tem uma palavra para sabedoria, que é sagesse. Mas o Barthes não quis falar sagesse, ele quis falar sapientia. Por que ele quis falar sapientia? Porque a palavra sapientia, em latim, quer dizer saber “saboroso”. Sapio, em latim, quer dizer “eu degusto”.

Então, o Barthes, depois de velho, compreendeu que a coisa maravilhosa na vida não é conhecer com os olhos, como acontece com a ciência, mas é conhecer com a boca. A vida é para ser degustada, a vida é para ser experimentada sob a forma de prazer.
E então o Barthes começou a falar sobre umas coisas interessantes... o prazer do texto, escrever como quem cozinha. Foi essa então... a importância do Barthes para mim, ele deu respeitabilidade acadêmica a algumas coisas que eu estava sentindo, que eu estava fazendo, mas não tinha coragem de dizer, porque eu era um professorzinho aqui do Brasil, mas quando o francês fala, então está tudo justificado... Escrever um texto para ser degustado.

Então, isso aconteceu comigo e, na medida em que eu fui entrando para essa linha, para essa experiência de sapientia, algumas coisas vieram à minha cabeça, fizeram parte da minha experiência, e eu aprendi algumas coisas que não sabia. Por exemplo: o Barthes disse que ele queria desaprender o que tinha aprendido. Eu desaprendi: eu desaprendi completamente o jeito acadêmico de falar. Eu não consigo mais falar academicamente. Eu comecei a falar por meio de imagens, as imagens vêm à minha cabeça e as imagens são deliciosas, e quando a gente usa uma imagem boa, a imagem é absolutamente inesquecível. As imagens têm o poder de transformar as pessoas. Nós estamos falando em transformação social, a transformação social não se consegue através da ciência, a transformação social se consegue através da sapientia.

Rubem Alves

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